Expansão do mundo ou Desilusão


I

Eu sou só a metade, é tudo  que eu consigo ser.
Metade daquilo que sonho, metade daquilo que fui, metade daquilo que espero...
Por isso sempre ando por ai, tentando procurar minhas metades incompletas. Uma letra de música, um cata-vento, um sapato perdido, uma pedra, uma flor, um pedaço do céu que me ajude a respirar com mais facilidade.
Vou caminhando, quem sabe te encontro na beira do moinho ? Gritando dentro de garrafas, para as palavras não sucumbirem.
E me encontrando pelo caminho,vou perdendo ...a pedra, o sapato, o pedaço de céu evapora. E já estou incompleta de novo.Será sempre assim? Num instante sempre faltara um pouco ou muito para me completar. Porque o tempo sempre será pequeno para terminar  de juntar minha fantasia e minha realidade. A fantasia e a realidade hora paralelas, hora cruzam-se, formam-se num infinito particular, perdem-se no céu de papel ,nunca me deixam parada.
E sempre estou no mesmo lugar.

 10 contos por mil ideias reais.


Os óculos que não são de Drummond, nem de cobre.
-Mas como você começa¿
-Como eu começo¿ É fácil. Olha só. Tá vendo aquele de óculos com aro de ouro¿ Sentando do outro lado do balcão lendo aquele jornal¿
-Que que tem ¿
- É Otávio, aquele óculos, redondo com aros de ouro, estilo John Lennon, ele comprou em um antiquário em Parati, na viagem que ele fez com a noiva dele. Foi em 2003, aquele óculos era de 1955 e tinha pertencido a Francisco, funcionário público que tinha como hobby escrever. Escrevia no final dos livros de receita da mulher, deixava recados em forma de poemas na geladeira, escrevia cartas de amor, cartas para amigos, cartas para analfabetos. Não escrevia para os jornais pois seus textos eram vistos como comunistas, e nem tinha interesse neles, pelos jornais e pelos comunistas.
  Seu sonho era escrever um livro, mas nunca tivera tempo e uma história completa para escrevê-lo. Não teve filhos por causa do problema que a mulher dele tinha no útero. Eles foram envelhecendo juntos, ele escrevia com mais freqüência, e aos poucos foi perdendo a visão porque não tratava dela direito, e nunca mudava os graus do óculos.
  Sempre depois do almoço ele chama a sua mulher.
-Vicentina!
 Eles sentavam na mesa da sala de jantar, com a porta aberta pra rua.
-Onde eu tinha parado¿
-“...E senhor Dirceu, destrinchou o peixe, ofereceu para o menino loiro e disse que aquilo era raro.”
  E assim passavam a tarde toda, Francisco ditando devagarzinho e sua esposa escrevendo com as mãos tremulas de velhice.
 Até que um dia aos 73 anos e seis horas da tarde de um sábado, o coração parou de bater. Seu Francisco deixou o caderno cair no chão. E sua esposa chorou muito.
-E o livro¿- perguntou o jornalista gordo.
-Que que tem o livro¿
-Ele conseguiu publicar¿
-Não. Ele nem se quer terminou. E sabe, os óculos...continuam com mesmo grau que tinha daquela época, é o mesmo tanto que o Otávio usa.
- Nossa , que história.
-É, e Otávio é editor. Mas sua editora só é conhecida por livros de receita.
 O homem de óculos com aro de ouro levantou do balcão, passou por nós e quando lançou nos um olhar eu disse com um aceno de mão quase imperceptível.
-Otáviio.- fiz bem baixinho só para o reporte ouvir.
 O homem dos óculos acenou com a cabeça, como se acena para um desconhecido que parece que te conhece.
   -Coitado é virgem.
    -Quem ¿
-Otávio, ué.
-Mas e a noiva¿
-Ah! A noiva. Ficou com a tia.
-Pra tia¿

-É, com a tia dele.
-Que história!
-É...que história.

datilografa XXII





seus sons encardidos
da garganta entupida de palavras engolidas,
Gagagagos se apaixonando
chão de assoalho quebrado
encarnação de quem vive ainda
de nariz levantado para a Lua
Cai a primeira letra do letreiro
Cinema falido
Arte falida
Arte ferida
Cataclismas
Só  fala a fala escrita
 Eu te amo, pode acreditar
E só faço isso pra te impressionar.
Decoram-se textos, decoram-se  papéis.
Vive-se de comida
Come-se a vida.

Revirando o baú, achei Chicó e me encantei

pronto , agora é só amassar e jogar fora

Fiz que não vi seu olhar
Falando alto sem parar
Sapateio os pés até ai
E se te encontro extasiado
Com uma descoberta nova
Trago a pipoca só pra te assistir

É, você não sabe quanto me faz bem
pensar que podemos reinventar
rabiscar uma casa, esboçar uma vida, pintar
um amor
depois amassar e jogar fora.
Deitado
Como dizia aquele ditado
Que não deu tempo pois atrasado
sempre chega na hora que o filme estava pra acabar.

Chic, chic, chic chicó
abotoa a camisa até o ultimo botão
chic chic chic chic chicó
vai dormir que o galo já cantó
a cantoria que se assovia no passar
dos carros
no movimento espatifado de uma noite sem fim
Chicó sai apressado, perfumado, galanteador
pra se esbarar com a guria .

Guloso pede dois maços de cigarro, engole um de passagem e logo outro encomenda pra viajem.
Já que não tinha nada pra fazer e cansava por demais ler, resolveu-se sentar pra escrever. Cagar em cima do papel-jornal.
Olha , lembrava-se como se fosse ali e agora, o homem velho, que tinha traços que poderiam ter sido bonitos, sentado do seu lado no metrô, segurando o jornal.

-Olha, veja isso. Até parece. Pensam que enganam a gente.Mas sabe qual a parte que mais me interessa?- fez o velho balançando o jornal.- A das tirinhas e do passatempo.- e volto os olhos cansados para o jornal, se ocupando em encontrar os sete erros dos quadrinhos do Laerte. E depois começou a completar o caça-palavras.
Chicó achou aquilo engraçado e começou a rir baixinho. Mas o velho percebeu.

-Não ri não. É a pura verdade. Se eu torcer ( fez ele torcendo o jornal com as duas mãos como quem torce uma roupa molhada) isso daqui, só sai lágrimas e sangue.

E Chicó parou de rir, estatizado pelos olhos azuis do velho rabugento, um Dom Casmurro dos tempos modernos.

Os dois voltaram os olhos para o desenho dos sete erros, dos dois lados um anjo arrumando sua áurea.

Trovalinda

Eu falo sua lingua
Gente estranha
Que fala pelos cutuvelos
E roe os dedos
Eu jogo quebra-medo
Eu faço trava-lingua
E você me ensina a beijar sem respirar
De baixo d´lua da rua da sua
lingua.
Você ouve minha trova
Você é meio medieval.
Eu sou sua suserana
E você meu cavalo de pau. Ana Júlia Carvalheiro
Tem a sua cara

mas não seu cheiro

Tem jeito de ser

Mas não existe

Tem força

Mas não tem coragem

Tem chance de acontecer

Mas já passou

Tem tempo para pensar

Mas sofre

Mas cheira a alfazema

E tem cara de bolacha

Mas não o gosto

Persiste

Mas não insiste

Tem poesias guardadas

mas não as mostra

Mas não entende

nada de política

mas sente

que tem que lutar pela bandeira

do nada.

Afoga toda a mágoa

passada

com pasta d´água

Sente saudade da infância

não cresce

Acrescenta mais açucar no café,

Não adianta.

Adianta o relógio meia-hora

Mas ela não chega

Nunca,

Depois da meia hora

Existe mais o infinito

E esse tem sua cara. Ana Júlia


ninguém lê os textos compridos. Preguiçosos. Mas isso só acontece porque eu tenho preguiça de diminui-los.