Tem a sua cara

mas não seu cheiro

Tem jeito de ser

Mas não existe

Tem força

Mas não tem coragem

Tem chance de acontecer

Mas já passou

Tem tempo para pensar

Mas sofre

Mas cheira a alfazema

E tem cara de bolacha

Mas não o gosto

Persiste

Mas não insiste

Tem poesias guardadas

mas não as mostra

Mas não entende

nada de política

mas sente

que tem que lutar pela bandeira

do nada.

Afoga toda a mágoa

passada

com pasta d´água

Sente saudade da infância

não cresce

Acrescenta mais açucar no café,

Não adianta.

Adianta o relógio meia-hora

Mas ela não chega

Nunca,

Depois da meia hora

Existe mais o infinito

E esse tem sua cara. Ana Júlia


ninguém lê os textos compridos. Preguiçosos. Mas isso só acontece porque eu tenho preguiça de diminui-los.

Cubículo

Palavras são em vão
só queria ver seu rosto
refletido no vidro da padaria
E quando marcasse quinze pra meio dia
Sair de casa e ir comer pastel de queijo com goiabada
Na praça
E ver e viver as tardes
que esquentam os sonhos.
Mas não escondem nada
Sabe o que eu acho mais bonito no Vinicius de Moraes,
A certeza do finito valer a pena
Hoje, amanhã e sempre.

Carteando


A gente escolhe onde queremos estar.


Sério? Eu não escolhi estar aqui. Nem você ai, nem ele ali, nem nós lá. Mas estamos, e sobrevivemos. Por quê? Porque precisamos, e somos adaptáveis, elásticos, feitos de borracha pra não molhar. Eu não queria ser adaptável, queria ser mais teimosa quem sabe estaria onde queria estar. Mas a verdade é que esses relatórios não param de chegar e o café na maquina de café acabou. Vou ter que colocar mais.

17 de algum Setembro.

A ratoqueira


oh ralooo do esgoto,

que passa e leva com ele todos os podres do mundo,

pobres seres enlatados ,

não sabem que tinham poderes.

A rala figura, tomava sopa

Rala, de frango, de legumes, de carne desfiada.

Sentia-se rala e queria se ralar pelo ralo.

Porque sua camisa era roída

Seu cabelo era raspado,

E seus pés sempre pisavam no raso.

Rápida foi sua vida

Assim toda rasgada

Sem reparo.

Assim não teve despedida

Não teve concerto

Nem como consertar.

Pro ralo rolou até rastejar com os ratos.

Por ali ficou riscando nas paredes, desenhos de giz.

Que nunca foram expostos numa galeria,

Mas encheram de cores e idéias as cabeças dos ratos.


Ana Julia C. Costa

Ensaio sobre mim mesmo








não sei , quero mudar de ares, quero começar tudo depois de uma virgula, até que o vento sopre me trazendo outra idéia-e se as coisas acontecessem sem precisar eu pensar, seria mais fácil de viver, mais fácil de esquecer, mais fácil de não se decepcionar, mas se nada acontecer vou mudar pro agreste , não sei aonde fica, pegue minha mochila e pare de falar no meu ouvido. Porque tudo se contradiz, e só os loucos é que pensam que o mundo se importa com eles, eu não. Se minha voz fosse suave eu cantava num bar, mas não seria eu. Vou usar um vestido á moda de Saint Laurent, daqueles que tem o desenho do Mondrian. Vou cantar Mutantes e beber “mocolok”, pintar com cores de Almodóvar, falar entre vírgulas com Saramago e aprender com Clarice. Se tiver tempo vou nadar no Mar-Morto e voar pelo Monte Everest com os urubus, e quem me perguntar pra quê? Responderei que é assim que quero viver, porque a vida é só uma e você faz o que bem entender dela, e “tudo vale a pena se a alma não é pequena”, e seu me afogar no mar de seus olhos e nem marinheiro puder me salvar então me deixe lá ,mas aqui fico entre reticências para não parecer que acabei...

Ana Julia C. Costa