Trovalinda

Eu falo sua lingua
Gente estranha
Que fala pelos cutuvelos
E roe os dedos
Eu jogo quebra-medo
Eu faço trava-lingua
E você me ensina a beijar sem respirar
De baixo d´lua da rua da sua
lingua.
Você ouve minha trova
Você é meio medieval.
Eu sou sua suserana
E você meu cavalo de pau. Ana Júlia Carvalheiro
Tem a sua cara

mas não seu cheiro

Tem jeito de ser

Mas não existe

Tem força

Mas não tem coragem

Tem chance de acontecer

Mas já passou

Tem tempo para pensar

Mas sofre

Mas cheira a alfazema

E tem cara de bolacha

Mas não o gosto

Persiste

Mas não insiste

Tem poesias guardadas

mas não as mostra

Mas não entende

nada de política

mas sente

que tem que lutar pela bandeira

do nada.

Afoga toda a mágoa

passada

com pasta d´água

Sente saudade da infância

não cresce

Acrescenta mais açucar no café,

Não adianta.

Adianta o relógio meia-hora

Mas ela não chega

Nunca,

Depois da meia hora

Existe mais o infinito

E esse tem sua cara. Ana Júlia


ninguém lê os textos compridos. Preguiçosos. Mas isso só acontece porque eu tenho preguiça de diminui-los.

Cubículo

Palavras são em vão
só queria ver seu rosto
refletido no vidro da padaria
E quando marcasse quinze pra meio dia
Sair de casa e ir comer pastel de queijo com goiabada
Na praça
E ver e viver as tardes
que esquentam os sonhos.
Mas não escondem nada
Sabe o que eu acho mais bonito no Vinicius de Moraes,
A certeza do finito valer a pena
Hoje, amanhã e sempre.

Carteando


A gente escolhe onde queremos estar.


Sério? Eu não escolhi estar aqui. Nem você ai, nem ele ali, nem nós lá. Mas estamos, e sobrevivemos. Por quê? Porque precisamos, e somos adaptáveis, elásticos, feitos de borracha pra não molhar. Eu não queria ser adaptável, queria ser mais teimosa quem sabe estaria onde queria estar. Mas a verdade é que esses relatórios não param de chegar e o café na maquina de café acabou. Vou ter que colocar mais.

17 de algum Setembro.

A ratoqueira


oh ralooo do esgoto,

que passa e leva com ele todos os podres do mundo,

pobres seres enlatados ,

não sabem que tinham poderes.

A rala figura, tomava sopa

Rala, de frango, de legumes, de carne desfiada.

Sentia-se rala e queria se ralar pelo ralo.

Porque sua camisa era roída

Seu cabelo era raspado,

E seus pés sempre pisavam no raso.

Rápida foi sua vida

Assim toda rasgada

Sem reparo.

Assim não teve despedida

Não teve concerto

Nem como consertar.

Pro ralo rolou até rastejar com os ratos.

Por ali ficou riscando nas paredes, desenhos de giz.

Que nunca foram expostos numa galeria,

Mas encheram de cores e idéias as cabeças dos ratos.


Ana Julia C. Costa